O que cinquenta anos de Candomblé realmente ensinam?
- Paulo de Oxalá

- 17 de jun.
- 3 min de leitura

Foto: Eu em reverencia ao meu Pai Oxalá – arquivo pessoal
Meio século de iniciação não faz alguém dono da verdade. Faz compreender que a maior riqueza do Orixá é continuar aprendendo
Há datas que convidam à comemoração. Outras nos convidam à reflexão. Ao completar cinquenta anos de iniciação no Candomblé, percebo que o maior presente que o Orixá me concedeu não foi o tempo, mas tudo o que o tempo me ensinou.
Ao longo dessa caminhada, aprendi que conhecimento não se mede pelos anos de iniciação, pelos títulos recebidos ou pelo reconhecimento conquistado. Ele se revela na forma como tratamos o sagrado, ouvimos os mais velhos e acolhemos aqueles que chegam depois de nós.
O tempo nunca pertence ao homem
Certa vez, um sábio sacerdote me disse uma frase que atravessou toda a minha vida: "Nunca se envaideça. O tempo pertence ao Orixá, não a você."
Desde então, compreendi que cada ano vivido dentro da religião representa uma responsabilidade maior, jamais um motivo para vaidade. O tempo não nos faz superiores. Apenas amplia nosso compromisso com a tradição, com a ética e com a transmissão correta do conhecimento.
Minha primeira biblioteca foi o Terreiro
Cheguei à Casa do meu Pai Oxalá em 1976. Era um garoto que nada sabia sobre Orixá. Naquele tempo, o preconceito contra o Candomblé era ainda mais intenso do que a intolerância religiosa que infelizmente persiste nos dias atuais. Muitos chamavam nossa religião de bruxaria, e isso fez com que minha própria família resistisse à minha iniciação.
Mas havia um caminho traçado pelo sagrado. Minha saúde era frágil, e Oxalá tinha uma missão para minha vida. Foi assim que recebi o orúkọ Òṣàlá Dọlá, tirado pelo saudoso Mejitó Clementino de Gbèsèn, grande amigo de Mãe Thereza Fomo de Oxalá.
Foi também naquele Terreiro que descobri uma verdade que levo comigo até hoje: a maior biblioteca do Candomblé nunca teve estantes. Ela vive na memória dos mais velhos.
Os verdadeiros mestres
Minha formação não aconteceu apenas entre livros. Ela foi construída, principalmente, ouvindo.
Ouvi Mãe Thereza, que trouxe da tradição Angola e da tradição Jeje uma sabedoria rara. Ouvi Mãe Benta de Ògún, Seu Cici de Oxum, Tio Clementino de Bessen, Agenor Miranda e tantos outros sacerdotes que me acolheram com generosidade.
Também tive o privilégio de entrevistar dezenas de Babalorixás e Yalorixás, especialmente durante os encontros promovidos pelo saudoso Doté Luiz de Jàgún. Cada conversa confirmava uma certeza: no Candomblé, o conhecimento é um patrimônio coletivo, construído pela palavra, pela convivência e pelo respeito aos ancestrais.
Quando a tradição encontrou a internet
Em 1998, percebi que essa riqueza precisava alcançar um novo espaço. Enquanto a internet ainda dava seus primeiros passos no Brasil, nasceu o primeiro site brasileiro criado por um Babalorixá exclusivamente dedicado ao Candomblé.
A iniciativa abriu portas para colaborações com o O Dia Online, revistas especializadas, o jornal Expresso, em 2005, e, desde 2007, para minha atuação como colunista do Extra Online.
Nunca enxerguei esses convites como conquistas pessoais. Sempre os entendi como oportunidades concedidas pelo Orixá para ampliar o alcance de uma tradição que merece ser conhecida e respeitada.
Entre os livros e a tradição oral
Ao longo dos anos, estudei autores fundamentais como Pierre Verger, Eduardo Fonseca Júnior, José Flávio Pessoa de Barros, Adilson Martins, Nelson Pires e tantos outros pesquisadores que contribuíram para preservar a memória das religiões de matriz africana.
Mas o próprio Terreiro me ensinou que os livros indicam caminhos; quem lhes dá vida são aqueles que viveram essa tradição. A pesquisa fortalece o conhecimento. A oralidade lhe dá alma.
Por isso, sempre procurei reunir essas duas dimensões em tudo o que escrevo: o rigor da pesquisa e a experiência construída ao longo de décadas dentro do Candomblé.
O maior ensinamento

Eu e meu pai Oxalá - arquivo Pai Paulo de Oxalá
Depois de cinquenta anos, não acredito que tenha chegado ao fim da caminhada. Pelo contrário.
Hoje tenho ainda mais consciência de que o verdadeiro sacerdote jamais deixa de aprender.
Se continuo escrevendo, pesquisando e compartilhando conhecimento, é porque entendo que essa é a missão que Oxalá confiou à minha vida. Não para acumular prestígio, mas para servir.
A cada novo texto, a cada palestra, a cada conversa, renovo o compromisso assumido ainda menino, quando entrei pela primeira vez na Casa do meu Pai Oxalá: preservar, ensinar e honrar o legado recebido dos mais velhos.
Que eu nunca perca a humildade para continuar ouvindo, porque é no silêncio de quem aprende que o Orixá continua falando.
Àkókò ti Òrìṣà ni. (O tempo pertence ao Orixá.)
Fon (Jeje): Mawu na Vòdún lẹ́ yí nù mi na mí lẹ́po. (Que Mawu e os Vòdúns abençoem a todos.)
Axé para todos!




Comentários