4ª Marcha para Exu transforma a Avenida Paulista em um Terreiro e convida Anitta
- Paulo de Oxalá

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Imagem: Jonathan Pires na Marcha para Exu e Anitta em EQUILIBRIVM II — divulgação
Organizador Jonathan Pires reúne Terreiros de todo o país em manifestação de fé, cultura e resistência
São Paulo se prepara para receber, neste domingo, 16 de agosto, a 4ª Marcha para Exu, um dos grandes encontros públicos de Terreiros do país. A concentração começa às 11h, em frente ao MASP, na Avenida Paulista, reunindo religiosos, simpatizantes e caravanas que chegam de diferentes cidades e estados brasileiros.
A Marcha para Exu já está consolidada em São Paulo e se transformou em um espaço público de fé, identidade, cultura e resistência. É um momento em que homens e mulheres de Axé deixam seus espaços sagrados e ocupam uma das avenidas mais conhecidas do Brasil para afirmar, sem medo, a existência e a dignidade de suas tradições.
Idealizada pelo fervoroso umbandista Jonathan Pires, a Marcha teve sua primeira edição em 2023. Desde então, o encontro cresceu e passou a reunir diferentes segmentos das religiões afro-brasileiras, além de artistas, produtores culturais, influenciadores, sacerdotes, sacerdotisas e simpatizantes. Logo na primeira edição, a repercussão foi grande, ajudando a colocar o debate sobre Exu e a intolerância religiosa no centro da atenção pública.
Uma das principais marcas do evento é transformar a Avenida Paulista em um grande Terreiro, onde muitos participantes se vestem de vermelho e preto, cores ligadas a Exu.
Tambores e atabaques acompanham os cânticos e as danças, realizados com muita alegria e fé. A programação também incorporou diferentes expressões culturais, como capoeira e maracatu, ampliando o caráter cultural do encontro.
Uma marcha contra a demonização de Exu
A escolha de Exu como centro da manifestação se deve ao fato de que, durante séculos, o Orixá foi alvo de interpretações externas às tradições africanas que acabaram associando sua imagem ao demônio. Essa associação não pertence às tradições religiosas afro-brasileiras. Ela é resultado de um longo processo histórico de demonização das divindades africanas durante a colonização e também depois dela.
Por isso, falar de Exu também é falar de liberdade religiosa.
Exu é movimento, comunicação, dinamismo, possibilidade e abertura de caminhos. É o princípio fundamental das relações, da circulação do Axé, força vital que a tudo impulsiona. Exu é aquele que participa das passagens, das transformações e dos momentos em que a vida exige ação.
Quando mostramos que Exu não é demônio, estamos respondendo a uma ofensa histórica, rompendo estigmas e mostrando a verdade sobre essa maravilhosa divindade.
Essa é uma das pautas que deram origem à Marcha.
A fé de um sacerdote que virou manifestação nacional, e o convite a Anitta
Além de sacerdote umbandista, Jonathan Pires é empresário e criador de conteúdo digital sobre Orixás e Entidades.
Jonathan aponta o pai como uma de suas grandes referências espirituais e conta que a perda dele, há 14 anos, acabou se transformando em uma lembrança que fortaleceu sua caminhada religiosa.
Essa trajetória ajuda a compreender por que a Marcha não nasceu apenas como um evento. Ela representa, para seu idealizador, uma forma de levar para as ruas uma fé que, durante muito tempo, foi obrigada a se esconder.
E a iniciativa ganhou dimensão nacional justamente ao transformar uma questão religiosa em uma manifestação pública de identidade e pertencimento.
Jonathan, que tem arrastado multidões com a Marcha para Exu, sonha agora com a presença de Anitta. A cantora é candomblecista e está em cartaz em diversas cidades do país com EQUILIBRIVM II, álbum recheado de músicas com temáticas afro-religiosas.
“Anitta é autêntica e, ao assumir publicamente sua fé nos Orixás, acaba fortalecendo também a nossa ancestralidade e mostrando que podemos falar da nossa religião com orgulho e sem medo. Eu fiz um convite especial para ela pelas redes sociais, e a mensagem repercutiu muito. Seria emocionante ver aquela multidão vestida de preto e vermelho, louvando Exu, e receber Anitta nesse momento tão importante para nós. Seria um encontro de fé, cultura e ancestralidade que, certamente, ficaria marcado na história da Marcha”, afirma Jonathan Pires.
Um slogan que resume a Marcha
“Nunca foi sorte, sempre foi macumba”
A expressão que marcou as últimas edições da Marcha: “Nunca foi sorte, sempre foi macumba” — também merece atenção.
A palavra “macumba” foi muitas vezes utilizada de forma depreciativa para atacar as religiões de matriz africana. Ao colocá-la no centro da manifestação, os organizadores procuram retirar dela o peso do preconceito e transformá-la em símbolo de afirmação.
A frase também dialoga com uma compreensão muito presente nas tradições de Terreiro: aquilo que muitas vezes é chamado de sorte pode ser compreendido, dentro da experiência religiosa, como resultado de fé, trabalho espiritual, cuidado, ancestralidade e Axé.
Não se trata de esperar passivamente que alguma coisa aconteça.
É preciso caminhar, buscar, cuidar, realizar e manter a conexão com o sagrado.
E aí encontramos novamente Exu: o movimento que coloca a vida para andar.
Uma manifestação que também olha para o coletivo e o bem-estar social
A organização pede que os participantes levem 1 kg de alimento não perecível, que será destinado a ações de solidariedade. A arrecadação de alimentos já fez parte das edições anteriores e reforça uma característica importante das religiões de Terreiro: a fé não está separada da comunidade.
Cuidar do sagrado também significa cuidar das pessoas
Nas edições anteriores, a manifestação reuniu milhares de participantes e chamou atenção pela diversidade de seu público, formado tanto por pessoas diretamente ligadas ao Candomblé e à Umbanda quanto por simpatizantes e pessoas interessadas na religiosidade afro-brasileira.
Para este domingo, a organização espera novamente caravanas vindas de diferentes regiões do país. A orientação é que os participantes, se possível, usem preto e vermelho, cores que se tornaram uma marca visual da mobilização.
A programação contará com artistas e cantores ligados à cultura de Terreiro, entre eles Ekedi Joice, MC Trans, Igor Benatti, Joia do Couro, Mika Musicumba Saravá e o próprio Jonathan Pires.
A concentração acontece às 11h, em frente ao MASP, na Avenida Paulista, 1578, em São Paulo.
A organização informa que a Marcha tem caráter religioso, cultural, pacífico e de conscientização, além de se apresentar como uma iniciativa independente de partidos políticos.
Quando Exu ocupa a Paulista
Talvez uma das imagens mais fortes da Marcha seja justamente esta: a Avenida Paulista, símbolo de uma das maiores cidades do país, sendo ocupada por pessoas que carregam seus fios de conta, suas roupas de Terreiro, seus símbolos, seus cantos e sua fé.
É uma mudança importante de lugar
Durante muito tempo, as religiões de matriz africana foram empurradas para a invisibilidade. Seus símbolos foram perseguidos, seus rituais foram criminalizados e suas divindades foram interpretadas a partir de referências religiosas que não lhes pertenciam.
Agora, seus praticantes caminham pela Paulista, não para pedir licença para existir, mas para afirmar que existem, com fé e como religião.
A Marcha para Exu também mostra que as religiões de matriz africana fazem parte da cultura brasileira e que sua presença não pode ser reduzida ao espaço privado dos Terreiros. Afinal, os povos africanos trouxeram para o Brasil, sabedoria, história, música, dança, culinária, linguagem e tantos outros elementos que fazem parte da formação cultural do nosso povo.
Por isso, quando Exu ocupa a Paulista, não é apenas uma divindade que está sendo homenageada. É a memória ancestral sendo honrada através dessa divindade forte, que nos transmite uma mensagem de fé e de resistência contra o racismo, o preconceito e a intolerância religiosa.
A grande força da Marcha talvez esteja justamente nisso: mostrar que aquilo que o preconceito tentou esconder continua vivo.
Exu não precisa ser explicado a partir do olhar de quem o rejeita. Precisa ser conhecido a partir das tradições que o cultuam.
Exu é caminho, movimento, comunicação e realização.
E, neste domingo, a Avenida Paulista será novamente palco dessa afirmação de fé, ancestralidade e resistência e, acima de tudo, de liberdade religiosa.
Que Exu abra os nossos caminhos, proteja nossos passos, fortaleça nossa fé e nos ensine a caminhar sempre com responsabilidade, respeito e verdade.
Viva a fé e a liberdade religiosa!
Laroyê Exu!
Axé para todos!




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