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Itaparica berço do Culto Egúngún no Brasil, foi cenário do clássico 'Milla', de Netinho

Foto do escritor: Paulo de Oxalá
Paulo de Oxalá
há 1 dia
4 min de leitura

Imagem: Netinho, Egúngún e Itaparica ao Entardecer - IA-inspirada na visão de Pai Paulo de Oxalá


Ilha é referência nos rituais originários de Ọ̀yọ́ na Nigéria

 

A morte do cantor baiano Netinho, nesta terça-feira, 13 de outubro, aos 60 anos, traz de volta a lembrança de um dos maiores sucessos de sua carreira, a música Milla, que ganhou o Brasil na década de 1990 e se tornou um clássico da axé music. O que muita gente talvez não saiba é que a Ilha de Itaparica, na Bahia, terra de importantes tradições do culto a Egúngún, foi cenário das gravações do clipe da canção, no distrito de Mar Grande.

 

Netinho deixou uma marca importante na música brasileira. Com sua voz, carisma e energia, ajudou a consolidar e popularizar a axé music, levando a alegria do Carnaval baiano para diferentes regiões do país. Sucessos como Milla, Beijo na Boca, Menina e Fim de Semana atravessaram gerações e permanecem na memória afetiva de milhões de brasileiros. Sua trajetória representa um capítulo significativo da música popular da Bahia e do Brasil.

 

A escolha de Mar Grande como cenário de Milla ganha um significado especial quando observamos a importância histórica e religiosa da Ilha de Itaparica. O território abriga comunidades tradicionais que preservam conhecimentos ancestrais africanos, especialmente aqueles ligados ao culto a Egúngún, uma das mais importantes expressões religiosas de matriz yorubá no Brasil.

 

Terreiros como o Ọmọ Ilé Àgbọulá e o Ilé Tùntún Olúkọ́tún fazem parte dessa história de resistência e continuidade cultural. São espaços sagrados nos quais a ancestralidade ocupa um lugar central e onde os fundamentos religiosos são preservados por gerações de sacerdotes e comunidades.

 

O culto a Egúngún tem suas raízes na tradição yorubá, na cidade de Ọ̀yọ́-Nigéria. No Brasil, a Ilha de Itaparica tornou-se uma referência fundamental para a preservação dessa tradição, transmitida por africanos e seus descendentes, que mantiveram vivos os conhecimentos religiosos apesar da perseguição e das tentativas de apagamento de suas culturas.

 

Na tradição do culto, os ancestrais são reverenciados em rituais próprios. Egúngún se manifesta em vestimentas sagradas, ricamente ornamentadas e coloridas, conduzidas por sacerdotes preparados para essa função, os Ọ̀jẹ̀. Entre os elementos tradicionais do culto estão as varetas chamadas Iṣan, utilizadas por estes sacerdotes.

 

O Alápini ocupa uma posição sacerdotal de grande importância nessa tradição. Os conhecimentos, as funções e os procedimentos religiosos são transmitidos de acordo com os fundamentos de cada comunidade, preservando uma herança espiritual que ultrapassa gerações.

 

Mar Grande, entre a beleza natural e a memória ancestral

 

Localizado no município de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, Mar Grande é um importante polo comercial e administrativo da região. A localidade também funciona como uma das principais portas de entrada para quem chega à ilha a partir de Salvador, por meio da travessia marítima pela Baía de Todos-os-Santos.

 

Foi nessa paisagem que Netinho gravou as cenas do clipe de Milla. A orla, as águas tranquilas da baía e as formações de recifes, que durante a maré baixa favorecem a formação de piscinas naturais, compõem a beleza característica da região.

 

A ilha reúne praias, comunidades tradicionais e referências históricas que ajudam a compreender a diversidade cultural da Bahia. Sua história, entretanto, não se limita à paisagem litorânea ou ao patrimônio arquitetônico. Há também uma riqueza espiritual que permanece viva nos Terreiros e nas famílias que guardam os conhecimentos de seus antepassados.

 

É importante lembrar que Itaparica e Vera Cruz são municípios distintos, situados na mesma ilha. Mar Grande pertence a Vera Cruz e tem papel central na circulação de moradores e visitantes. A travessia a partir de Salvador aproxima a capital de um território que preserva expressões culturais fundamentais para a história afro-brasileira.

 

A gravação de Milla deixou uma lembrança musical associada a essa paisagem. Com a morte de Netinho, o lugar ganha também um novo significado para os admiradores do cantor, que podem recordar sua voz e sua contribuição à axé music ao mesmo tempo que conhecem melhor a importância cultural e religiosa da ilha.

 

A história de Itaparica nos ensina que a memória de um território é formada por muitas camadas. A música popular, a vida das comunidades e a tradição religiosa convivem nesse espaço, cada uma com sua contribuição para a identidade baiana.

 

Neste momento de despedida, fica o reconhecimento à trajetória de Netinho, artista que levou a alegria da música baiana a milhões de pessoas e eternizou Milla na memória popular. Que sua obra continue sendo lembrada com respeito e que a Ilha de Itaparica permaneça valorizada não apenas por suas belezas naturais, mas também pela riqueza de sua herança africana.

 

Exaltar o culto a Egúngún é reconhecer a importância dos nossos ancestrais, honrar aqueles que vieram antes de nós e defender a continuidade dos saberes sagrados que chegaram da África e permanecem vivos no Brasil. Preservar essa tradição é preservar a memória, a identidade e a história de nosso povo.

 

Que os nossos ancestrais sejam sempre reverenciados, que seus ensinamentos continuem iluminando os nossos caminhos e que a força da ancestralidade permaneça viva em nossos Terreiros.

E que Netinho seja lembrado pela alegria que transmitiu através da sua arte.

Netinho morreu de falência renal e disfunção múltipla de órgãos, decorrentes de complicações de um linfoma não Hodgkin do tipo B (câncer do sistema linfático), no Hospital Aliança Star, em Salvador. O Velório e sepultamento aconteceu nessa quarta-feira, 14, e foram realizados de forma reservada, restritos apenas a familiares e amigos próximos, conforme o desejo do artista.


Ọkùnrin máa ń wà títí lae nípasẹ̀ iṣẹ́ rẹ̀. (Um homem é eterno por sua obra.)


Axé para todos!

 


 
 
 

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Tags: Babalorixá, Simpatia, Búzios, Tarot e numerologia

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