As Profecias do Caboclo Piatã
- Paulo de Oxalá

- 30 de jul.
- 3 min de leitura

Imagem: Caboclo Piatã - IA-inspirada na visão de Pai Paulo de Oxalá
Caboclo Piatã, filho de Cobra Coral
Desde muito cedo, Piatã via seu avô, Muruá, conversar com o vento, as nuvens, a chuva, o Sol, a Lua, as estrelas e tudo o que governava o tempo. O pequeno indígena não compreendia aquelas palavras sussurradas para o céu. Escondido entre as árvores, observava em silêncio cada gesto do velho pajé.
Seu pai, Cobra Coral, fazia exatamente o mesmo. Em certos dias, olhava demoradamente para o horizonte; em outros, enterrava as mãos na terra, fechava os olhos e parecia ouvir a floresta respirar. Para Piatã, tudo aquilo era um grande mistério.
Com a morte de Muruá, Cobra Coral assumiu sozinho a missão de dialogar com os elementos da natureza. Somente muitos anos depois Piatã descobriu que aquelas conversas não eram magia, mas um antigo conhecimento dos pajés, transmitido de geração em geração para proteger a tribo, orientar as caçadas, indicar o tempo do plantio e da colheita, avisar sobre tempestades, secas e garantir o equilíbrio entre o homem e a floresta.
Já idoso, sentindo que sua caminhada na Terra chegava ao fim, Cobra Coral chamou o filho para junto da fogueira.
— Chegou a sua hora, Piatã.
Então revelou um segredo guardado por seus ancestrais.
— Nós pertencemos à antiga linhagem dos Ederumins, homens escolhidos para conversar com Yamandú, o Grande Espírito. Não somos donos da chuva, dos ventos ou do trovão. Apenas aprendemos a ouvir a linguagem da natureza. Quem respeita a Terra consegue entender seus sinais. Quem entende seus sinais pode anunciar o que está por vir.
Naquela noite, Piatã recebeu o bastão de seu pai e tornou-se o novo guardião das mensagens do céu e da floresta.
Durante décadas, suas previsões salvaram aldeias inteiras. Avisava sobre enchentes antes que os rios transbordassem. Anunciava longos períodos de seca para que os alimentos fossem armazenados. Sabia quando era hora de plantar, de pescar e até quando a chuva deveria chegar. Muitos acreditavam que ele fazia chover. Piatã apenas sorria.
— Não sou eu quem faz a chuva. É a própria natureza que responde quando é respeitada.
Caboclo Piatã viveu até os 94 anos. Pouco antes de partir para a Morada dos Encantados, reuniu seus discípulos e deixou aquela que seria conhecida como sua maior profecia.
"Estão arrancando os cabelos da Terra, e ela responderá com violência, porque toda violência gera outra violência."
Ninguém compreendeu de imediato.
Então ele explicou:
— Os cabelos da Terra são as florestas. Cada árvore derrubada é como um fio arrancado do corpo de nossa Mãe. O homem mata a mata para alimentar sua ganância. Mata os rios, envenena os peixes, expulsa e mata os animais, e acredita que permanecerá vivo sobre uma terra morta.
Fez uma longa pausa e continuou:
— O calor aumentará como nunca antes. As chuvas virão quando não forem esperadas e faltarão quando forem necessárias. Os ventos se tornarão mais fortes, as águas subirão, as secas serão mais longas, e o fogo caminhará pelas florestas como se estivesse vivo. Os mares também adoecerão, porque tudo na criação está ligado. Quem fere a floresta também fere os rios, os oceanos e o próprio céu.
Seus discípulos perguntaram se aquilo era um castigo de Yamandú.
Piatã respondeu serenamente:
— Não. É apenas a resposta da própria natureza. O homem colherá exatamente aquilo que plantou.
Antes de fechar os olhos pela última vez, deixou sua derradeira mensagem:
— Ainda existe esperança. Quando o homem voltar a plantar mais do que derruba, preservar mais do que explora e respeitar mais do que domina, a Terra voltará a respirar. A natureza não busca vingança; ela busca equilíbrio. E enquanto existir uma árvore em pé, uma nascente viva e alguém disposto a ouvir o vento, Yamandú continuará falando com a humanidade.
Dizem os mais antigos que, nas noites de tempestade, quando os ventos mudam de direção e o cheiro da mata invade o ar, ainda é possível ouvir a voz do velho Caboclo Piatã ecoando entre as árvores. E quando a chuva cessa, um arco-íris colore o horizonte, como um sinal de que Yamandú jamais abandona aqueles que respeitam a criação. É nesse instante que o vento parece sussurrar as últimas palavras do velho caboclo:
— Quem protege a Terra protege a si mesmo. Quem destrói a floresta apressa o próprio fim.
Anama ára oîkó xe rekó resé!
(Ainda há tempo para salvar a vida!)
Yamandú tome'ẽ porang opavavé resé!
(Que Deus abençoe a todos!)




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