Uma semana marcada pela intolerância e por ataques à fé nos Orixás
- Paulo de Oxalá

- 3 de jul.
- 3 min de leitura

Fotos: Luiz Henrique hostilizado, casal invade residência e PMs apreendem atabaques - TV Globo e internet
Jovem e mulher são hostilizados, e atabaques são apreendidos
O sagrado, para muitos, é o único chão que resta quando o mundo parece desmoronar. É o fio de contas no pescoço, o toque do atabaque e o pano branco que veste o corpo e fortalece a alma. No entanto, em um Brasil que se diz plural, esse mesmo sagrado tem sido alvo de profundas cicatrizes. A intolerância religiosa não é apenas um número nas estatísticas policiais; ela tem rosto, tem idade e, cruelmente, tem cor. De Norte a Sul, professar a ancestralidade africana tornou-se um ato de resistência e, lamentavelmente, de risco.
O sagrado ferido
Neste fim de junho, justamente em meio às celebrações dedicadas a Xangô, o senhor do raio e do trovão, a dor atravessou o mapa do Brasil, revelando que a liberdade de crença ainda é um direito negado a muitos.
No Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, Luiz Henrique, um adolescente de apenas 14 anos, viveu o que nenhum jovem que abraça uma fé deveria passar. Vestindo a camisa branca do uniforme escolar e calças compridas brancas, usadas como vestes nas religiões de matriz africana, ele foi impedido de seguir viagem. Enquanto os demais estudantes permaneciam no coletivo, o motorista apontou para ele e ordenou: "Garoto de branco, saia do ônibus agora". Sozinho no asfalto, restou a Luiz desabafar em um vídeo que rapidamente ganhou repercussão. Ele não havia cometido crime algum; apenas usava seus fios de contas e estava com um torso.
Ainda no Rio de Janeiro, o ódio bateu à porta de outra vítima. Um casal, movido pelo fanatismo religioso, invadiu uma residência para destruir objetos sagrados de matriz africana. Sob o pretexto de "acabar com o mal", quebrou símbolos que representavam paz, acolhimento e ancestralidade para a moradora. A violência praticada contra aqueles objetos foi, na verdade, uma tentativa de ferir a identidade e a dignidade de uma mulher dentro do próprio lar.
Já em Manaus, durante a celebração dos 13 anos de trabalhos espirituais de uma Entidade, tambores sagrados foram apreendidos na zona norte da cidade. Sem medição dos níveis de ruído e desconsiderando a liturgia da religião, agentes policiais entraram no terreiro e recolheram os instrumentos utilizados no culto. Atabaques, xequerês e sinos foram manuseados sem o respeito que o sagrado exige. Na capital amazonense, a percussão da fé foi tratada como caso de polícia, em um episódio que a comunidade classifica como racismo religioso.
A fé que não se curva
Apesar dos ataques, o Axé permanece vivo. Luiz Henrique, o jovem da Baixada Fluminense, resumiu a força de um povo ao afirmar: "Minha religião é a coisa mais bonita que me aconteceu". É justamente essa beleza que a intolerância tenta, sem sucesso, apagar.
A Constituição brasileira é clara: a liberdade de crença é inviolável. Mas, para além das leis, existe o imperativo da humanidade. Destruir o objeto sagrado do outro não apaga sua divindade; apenas revela a escuridão de quem agride. O respeito é a única ponte possível para uma sociedade que deseja ser verdadeiramente humana, pois a intolerância religiosa é crime, e a fé é um direito.
Não adianta tentar calar a voz dos Orixás. Os Orixás são vida. E atentar contra eles é atentar contra a própria humanidade.
Axé para todos!




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