Tecnologia e axé: a inteligência artificial e o culto dos Orixás


Imagem: a tecnologia preservando o axé - IA-inspirada na visão de Pai Paulo de Oxalá
A pedra que constrói e a pedra que fere
Dizem os mais velhos que uma mesma pedra pode ter destinos diferentes. Pode servir para erguer uma casa ou pode ser lançada contra alguém para feri-lo.
Essa sabedoria ancestral também pode nos ensinar muito sobre a Inteligência Artificial e sua relação com a cultura e o culto dos Orixás.
A Inteligência Artificial é uma ferramenta. E, como toda ferramenta, ela não possui, por si mesma, o sentido que damos a ela. Podemos utilizá-la para pesquisar, organizar conhecimentos, divulgar a história dos nossos Orixás, preservar palavras em yorùbá, fon, kimbundu, umbundu e outras línguas africanas presentes nas tradições de Candomblé. Podemos também utilizá-la na produção de textos, imagens e materiais educativos que valorizem nossas tradições e aproximem as novas gerações da riqueza cultural dos nossos Terreiros.
Mas existe um limite que jamais podemos esquecer. A tecnologia não substitui a ancestralidade.
A Inteligência Artificial pode ajudar a transmitir e organizar conhecimentos, mas não substitui o mais velho que ensina a partir da sua vivência, o sacerdote que conhece os fundamentos da sua tradição, nem o jogo de búzios quando uma questão exige orientação espiritual.
Não podemos transformar a Inteligência Artificial em uma autoridade religiosa. Ela pode informar, pesquisar, comparar, organizar e auxiliar. Mas fundamento não se inventa, axé não se programa e tradição não se aprende apenas em bancos de dados.
Por isso, precisamos aprender a utilizar essa nova ferramenta com responsabilidade e consciência.
Assim como a pedra pode construir uma casa ou ferir alguém, a Inteligência Artificial pode construir pontes para a nossa cultura ou espalhar desinformação sobre os Orixás.
Cabe a nós escolher o caminho da construção.
Que a tecnologia esteja a serviço da memória, da educação, da preservação e da valorização das religiões de matriz africana. Que jamais seja utilizada para inventar fundamentos, banalizar o sagrado ou alimentar o preconceito.
O futuro pode caminhar ao lado da tecnologia, mas não pode esquecer que o axé ancestral é insubstituível.
Estamos falando do sagrado, do espiritual e da fé. E isso nenhuma tecnologia é capaz de preencher dentro de nós. A fé é a certeza daquilo que não vemos. Não enxergamos com os olhos carnais Olódùmarè ou qualquer outro Orixá, mas, por meio da fé, aprendemos a enxergar muito além daquilo que os olhos podem alcançar.
A Inteligência Artificial pode reproduzir informações sobre a nossa religião, mas não pode sentir o axé. Pode descrever um ritual, mas não vivenciar o sagrado. Pode reunir milhares de palavras sobre um Orixá, mas não substituir a experiência daqueles que receberam esse conhecimento através da ancestralidade.
Que Exu nos ensine a compreender os novos caminhos e a lidar com as encruzilhadas do mundo contemporâneo.
Que Òṣùmàrè nos ensine que tudo se transforma e que a transformação também exige equilíbrio.
Que Ògún, senhor da tecnologia, do ferro e dos instrumentos que transformam o mundo, nos inspire a utilizar o conhecimento para construir, proteger e melhorar a vida, jamais para destruir.
E que os Orixás não permitam que o ser humano transforme uma ferramenta capaz de ajudar a salvar vidas e melhorar o mundo em instrumento de destruição, mentira e intolerância.
Porque toda ferramenta carrega uma responsabilidade nas mãos de quem a utiliza.
A mesma pedra que pode erguer uma casa pode ferir alguém.
A mesma tecnologia que pode preservar a memória de uma cultura pode também distorcê-la.
Que saibamos escolher o lado da construção.
Que a Inteligência Artificial caminhe ao lado da nossa cultura sem jamais ocupar o lugar da nossa ancestralidade.
Porque a tecnologia pode criar imagens, ampliar vozes e multiplicar conhecimentos, mas são a ancestralidade, os Orixás e a nossa própria consciência que devem nos orientar sobre o que pode e o que não pode. Afinal, nenhuma máquina age sozinha. Toda tecnologia é ativada pelas mãos humanas, e é a nossa responsabilidade escolher se ela será utilizada para construir ou para destruir.
Òòlù ń kọ́ ṣùgbọ́n ó tún lè ṣe ìpalára. (Um martelo constrói, mas também pode ferir.)
Axé para todos!




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