Repórter tem cabelo puxado e mulheres negras são alojadas em estábulo
- Paulo de Oxalá

- 30 de nov. de 2025
- 2 min de leitura

Foto: repórter Duda Dalponte e Marcha das Mulheres Negras - TV Globo e internet
Agressão e humilhação contra mulheres: até quando?
Eu, Pai Paulo de Oxalá, falo hoje com o coração pesado, mas com a firmeza que aprendi com antigas Yalorixás, que sustentaram a fé, a tradição e os terreiros mesmo sob perseguições e violências. A história se repete porque a sociedade insiste em não aprender.
Nos últimos dias, dois episódios escancararam, mais uma vez, o quanto as mulheres continuam expostas à agressão, à humilhação e ao desrespeito. A repórter da TV Globo, Duda Dalponte, teve seu cabelo puxado durante uma transmissão ao vivo, em plena atividade profissional. Foi atacada enquanto fazia seu trabalho, diante de milhares de pessoas, por alguém que sequer teve coragem de se identificar. A violência mascarada de “empolgação”, de “brincadeira”, como muitos tentaram justificar, mostra o quanto a misoginia ainda está enraizada. Mulher não pode trabalhar em paz. Mulher não pode existir em paz.
E, como se não bastasse, na última terça-feira, 25 de novembro, mulheres negras, participantes da 2ª Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, foram alojadas em estábulos, em um espaço destinado a cavalos, na capital do país. Na cidade que deveria simbolizar democracia e respeito, elas foram obrigadas a dormir sobre serragem e lona para “disfarçar” o odor do que ali estava antes. Mulheres negras, que marcham por dignidade, foram tratadas como animais. “Como nossos ancestrais”, disse uma delas, e essa frase dói no corpo inteiro. É violência simbólica, física, histórica e espiritual.
Esses dois casos, mostram que, mesmo em 2025, a agressão e a humilhação ainda são parte da realidade feminina. É triste dizer isso, mas é verdade. As Yalorixás que vieram antes nós, enfrentaram perseguições, difamações, invasões, chicotes e intolerâncias. Lutaram para manter viva a tradição, lutaram para manter vivo o axé. E hoje vemos ainda mulheres passando pelas mesmas dores com novos nomes e velhas práticas.
O que muda então? Muda a nossa consciência. Muda a nossa coragem de dizer basta. Muda quando entendemos que não é “mimimi”, não é exagero, não é invenção. É uma estrutura montada para diminuir mulheres, especialmente mulheres negras, desde sempre.
A lição é simples e profunda: respeito não se negocia. Mulher não é objeto. Mulher não é alvo. Mulher não é saco de pancada, nem de torcida, nem de Estado. Toda violência contra uma mulher é violência contra toda a sociedade. E quando essa violência recai sobre mulheres negras, o golpe é ainda mais profundo, porque atinge também a memória ancestral.
Que esses episódios sirvam de alerta e de transformação. Que a sociedade aprenda o que as nossas mais velhas já gritavam há séculos: sem respeito às mulheres, não existe axé, não existe futuro, não existe nação.
E que cada um faça a sua parte, porque o mundo só muda quando a gente muda a postura, o olhar, a palavra e a ação.
Que Oxum lave essas dores. Que Yansã levante seus ventos de justiça. Que as mulheres sejam tratadas como o que são: sagradas.
Viva as mulheres!
Axé para todas!




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