O adeus à força e ao sorriso de Rosa Perdigão
- Paulo de Oxalá

- 22 de jul.
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de jul.

Imagens: Rosa Perdigão e grupo homenageado com a Medalha Ìyá Oloórí – crédito: Irmandade Mulheres de Yemọja
Ekẹdi era uma das Baianas de Acarajé mais conhecidas do Rio de Janeiro
Há encontros que, sem sabermos, tornam-se despedidas. E como são importantes, em nossa vida, as bênçãos, os abraços e o afeto compartilhado. A última vez que estive com Rosa foi no dia 8 de junho, durante a entrega da Medalha Ìyá Oloórí, promovida pela Irmandade Mulheres de Yemọja, na Biblioteca Parque Estadual do Rio de Janeiro.
Ao deixar o palco, caminhei até a entrada do Teatro Alcione Araújo. Lá estava Rosa, exatamente como todos aprenderam a conhecê-la: radiante, sorridente, respeitosa e acolhedora. Trocamos as bênçãos, nos abraçamos e seguimos nossos caminhos. Hoje compreendo que aquele foi o nosso último abraço.
A dor da partida é grande, mas o conforto está nas lembranças de uma mulher extraordinária. Rosa Perdigão foi uma Ekẹdi dedicada, Baiana de Acarajé, defensora incansável da cultura afro-brasileira e uma pessoa que irradiava carisma. Seu sorriso sincero era uma de suas maiores marcas. Agora, segue seu caminho para o Òrun, deixando entre nós um vazio difícil de preencher.
Como Ekẹdi, Rosa conhecia profundamente o significado do àkàrà, alimento sagrado que, no Brasil, recebeu o nome de acarajé. Preparado com ẹwà erèétírọ̀ó (feijão-fradinho) e frito no azeite de dendê, o àkàrà é uma das mais belas oferendas dedicadas a Yánsàn. Mais do que um alimento, ele representa ancestralidade, resistência e identidade.
E Rosa era exatamente isso: ancestralidade, resistência e identidade.
À frente do Cheirinho de Dendê, levou a culinária de matriz africana para milhares de pessoas, preservando uma tradição centenária com dignidade, alegria e excelência. Também participou do programa Papo Reto, de Wellington Andrade, na Rádio Roquette Pinto FM. Enquanto eu compartilhava com os ouvintes a energia dos Orixás, Rosa encantava a todos ensinando a riqueza da gastronomia afro-brasileira. Falava com leveza, espontaneidade e um entusiasmo contagiante.
Sua atuação ia muito além da gastronomia. Filha de Mãe Margareth D'Oxum, do Ilê Axé Alto da Cachamorra, em Campo Grande, Rosa esteve sempre presente na defesa dos direitos das Baianas de Acarajé, dos artistas, dos profissionais da cultura e da valorização das tradições afro-brasileiras. Participava dos eventos religiosos, dialogava com o poder público e fazia de sua voz um instrumento de luta pela preservação da nossa herança ancestral.
Seu legado permanecerá vivo em cada tabuleiro de acarajé, em cada festa de axé, em cada sorriso acolhedor e em cada gesto de generosidade que inspirou ao longo de sua caminhada.
Que o Ilê Axé Alto da Cachamorra, seus familiares, amigos e toda a comunidade encontrem conforto nas lembranças de uma mulher que honrou sua missão com dignidade, coragem, fé e amor.
A Ẹkẹdi Rosa Perdigão faleceu nesta quarta-feira, 22 de julho. O velório acontecerá nesta quinta-feira, 23 de julho, a partir das 13h30, e o sepultamento será às 15h30, no Cemitério da Penitência, no Caju, Rio de Janeiro.
Rosa Perdigão será sempre lembrada não apenas pelo sabor inesquecível do seu acarajé, mas, sobretudo, pelo carinho com que acolhia cada pessoa, pela firmeza da sua fé e pela grandeza do seu coração. Seu legado de afeto, generosidade e dedicação permanecerá vivo na memória de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la.
Àwọn ènìyàn kan wà tí wọ́n jẹ́ ìmọ́lẹ̀ àti adùn nínú ìrìn ayé wa. (Existem pessoas que são luz e doçura em nossa caminhada.)




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