Exu dos Ventos volta ao centro do debate
- Paulo de Oxalá

- há 8 minutos
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Foto: Exu dos Ventos, antes e agora - divulgação
Lideranças religiosas realizam ato público para cobrar a reinstalação da histórica escultura no Rio de Janeiro
A história da escultura Exu dos Ventos, um dos mais importantes monumentos da arte pública afro-brasileira do Rio de Janeiro, volta ao centro do debate. No próximo sábado, 1º de agosto, às 12h, no canteiro central da Linha Amarela, próximo ao acesso à Cidade Universitária (UFRJ), na Ilha do Fundão, lideranças das religiões de matriz africana e representantes da sociedade civil promoverão um ato público, seguido de uma lavagem ritualística, para cobrar a reinstalação da obra.
Para compreender a importância dessa mobilização, é preciso conhecer quem é Exu e entender por que um dos maiores escultores brasileiros escolheu essa divindade yorubá para representar o movimento, os caminhos e a comunicação em uma obra destinada ao espaço público.
Èṣù (Exu) é um Òrìṣà (Orixá), divindade yorubá que tem como elementos o fogo e a terra. Está ligado ao dinamismo, à transformação, ao movimento e à comunicação. É o grande intermediário entre Olódùmarè e os seres humanos, razão pela qual conhece profundamente a natureza humana e acompanha suas atitudes e escolhas.
Exu não representa o mal. Ao contrário da imagem construída ao longo dos séculos por interpretações equivocadas, trata-se da divindade responsável pela comunicação entre o Ọ̀run (mundo espiritual) e o Àiyé (mundo material), guardião das encruzilhadas, dos caminhos e das passagens. Seus Oríkì (versos sagrados) revelam justamente esse caráter transformador. Um dos mais conhecidos afirma que Exu é "aquele que faz o erro virar acerto e que acertou um pássaro com uma pedra lançada ontem", demonstrando que o tempo, a inteligência e a transformação fazem parte de sua essência.
Foi essa visão ancestral que inspirou um dos mais emblemáticos monumentos da arte pública brasileira: Exu dos Ventos.
A origem da escultura
A obra foi criada em 1992 pelo consagrado escultor baiano Mario Cravo Júnior, um dos maiores nomes da escultura moderna brasileira. Diferentemente do que muitos imaginam, sua intenção não era produzir um monumento religioso, mas criar uma obra de arte pública que representasse uma das matrizes formadoras da identidade cultural brasileira.
Para isso, Cravo Júnior buscou inspiração no tradicional brinquedo popular nordestino Mané-gostoso, cuja estrutura gira impulsionada pela força do vento. O escultor enxergou naquele movimento permanente uma metáfora perfeita para Exu, a divindade que simboliza a comunicação, a circulação da energia, os caminhos, os encontros e as transformações.
A escolha de Exu, portanto, não foi casual. Entre todas as divindades do panteão yorubá, era ele quem melhor traduzia a ideia de movimento contínuo. A escultura foi concebida para que o vento se tornasse parte da própria obra, estabelecendo um diálogo permanente entre a arte, a natureza e a cidade.
Com aproximadamente 10 metros de altura, cerca de duas toneladas, construída em aço corten nas cores vermelho e preto, Exu dos Ventos tornou-se uma das maiores esculturas inspiradas na cultura afro-brasileira já produzidas no país.
A chegada ao Rio
Embora concluída em 1992, a obra permaneceu durante anos sem um destino definitivo. Foi somente na gestão do prefeito Luiz Paulo Conde, defensor da valorização da arte pública no Rio de Janeiro, que surgiu a proposta de instalá-la na entrada da Linha Amarela, um dos principais corredores viários da cidade.
A escolha do local carregava forte simbolismo. A Linha Amarela representa o encontro de caminhos, o intenso fluxo de pessoas e a mobilidade urbana. Para Mario Cravo Júnior, dificilmente haveria um espaço mais apropriado para uma escultura dedicada justamente à divindade que rege os caminhos, as passagens, os cruzamentos e a comunicação.
Entretanto, a instalação da obra coincidiu com o período eleitoral de 2000. A simples presença de uma escultura inspirada em Exu provocou forte reação de segmentos conservadores e de lideranças religiosas, que passaram a pressionar a Prefeitura pela suspensão do projeto.
A polêmica ganhou as páginas dos jornais, alimentou debates políticos e chegou ao Judiciário. Diante da repercussão e para evitar que a obra fosse transformada em instrumento da disputa eleitoral, Luiz Paulo Conde, embora mantivesse sua decisão de instalar a escultura, optou por adiar sua inauguração oficial.
Somente em dezembro de 2000, encerrado o processo eleitoral, Exu dos Ventos foi finalmente instalado na Linha Amarela, de forma discreta e sem a cerimônia pública inicialmente prevista.
Do patrimônio artístico ao símbolo da intolerância religiosa
A partir daquele momento, a escultura deixou de ser apenas uma obra de arte para transformar-se em um dos maiores símbolos da intolerância e do racismo religioso no espaço público brasileiro.
Ao longo dos anos, o monumento sofreu sucessivos atos de vandalismo e depredação, denunciados pelo Extra, que também acompanhou toda a controvérsia envolvendo sua permanência na cidade.
Em maio de 2005, fortes ventos agravaram problemas estruturais já existentes. Durante a administração do prefeito Cesar Maia, a parte superior da escultura foi retirada sob a justificativa de garantir a segurança da população. A medida, anunciada como temporária, acabou tornando-se permanente.
Passadas mais de duas décadas, apenas a base permanece na Linha Amarela. A parte superior da escultura continua guardada no depósito da Fundação Parques e Jardins, na Praça Onze, aguardando uma solução definitiva para sua restauração e reinstalação.
Um novo capítulo na história do Exu dos Ventos
No próximo 1º de agosto, a Irmandade Cultura Afro-Brasileira (IRMAFRO) e a Associação Nacional de Mídia Afro (ANMA) promoverão um ato público em defesa da recuperação e da reinstalação integral da escultura.
A manifestação reunirá sacerdotes e sacerdotisas do Candomblé e da Umbanda, pesquisadores, representantes do movimento negro, defensores dos direitos humanos e lideranças da sociedade civil.
O ponto alto da mobilização será uma lavagem ritualística na base da escultura, acompanhada de cânticos em louvor a Exu. O ato pretende reafirmar o significado espiritual da divindade e chamar a atenção das autoridades para a necessidade de preservar um patrimônio artístico, histórico e cultural da cidade.
Segundo os organizadores, a mobilização também busca sensibilizar a Prefeitura do Rio de Janeiro para que apresente uma solução definitiva para a reinstalação da obra.
Como resume Sérgio de Oxaguian, diretor da ANMA:
"Este ato não é apenas uma manifestação religiosa. É um clamor pela preservação da memória afro-brasileira, pelo respeito à liberdade de culto e pela valorização de um patrimônio que pertence à história do Rio de Janeiro. Reinstalar o Exu dos Ventos é devolver à cidade um monumento que simboliza a diversidade, a ancestralidade e o direito de todas as tradições culturais ocuparem os espaços públicos."
Que Exu nos ajude, diz Pai Nando de Oxaguian:
Liderança da IRMAFRO e dirigente do Ilé de Jàgún, Pai Nando de Oxaguian lembra que a luta pela reconstrução e reinstalação da escultura Exu dos Ventos teve início ainda na época do saudoso Pai Renato de Obaluaiyê, um dos principais defensores da preservação do monumento.
"Meu pai lutou muito pela recuperação dessa escultura, que, na verdade, tornou-se um símbolo da resistência das nossas tradições no Rio de Janeiro. Este ato do dia 1º de agosto é muito importante porque demonstra o compromisso que temos com a nossa identidade, a nossa ancestralidade e a nossa fé. Para nós, Exu dos Ventos não é apenas uma escultura; é a representação do Orixá Exu guardando os caminhos de todos. Por isso, rogo a Exu que nos ajude nessa luta e que sensibilize as autoridades para que esse patrimônio volte a ocupar o lugar que nunca deveria ter deixado."
Um símbolo das religiões de matriz africana no Rio de Janeiro
Mais do que restaurar uma escultura, a mobilização representa a defesa da memória coletiva e da liberdade religiosa. Concebido por Mario Cravo Júnior como uma celebração do movimento, da comunicação e da riqueza cultural brasileira, Exu dos Ventos transformou-se, ao longo dos anos, em um símbolo da resistência ao racismo religioso e da luta pelo reconhecimento da contribuição das religiões de matriz africana para a formação da identidade do Rio de Janeiro.
Sua reinstalação representa não apenas a recuperação de uma obra de arte, mas a reafirmação de que a história, a ancestralidade e a cultura afro-brasileiras também têm lugar e voz no espaço público.
A Constituição Federal garante a liberdade religiosa e protege o patrimônio cultural brasileiro. A intolerância religiosa e o racismo religioso são crimes.
Láròyẹ̀ Exu!
Axé para todos!




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