A força dos sacerdotes das religiões de matriz africana
- Paulo de Oxalá

- 11 de fev.
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Foto: Mãe Maria de Ògún e Mãe Manu com filhos de Santo – arquivo Pai Paulo e Luiz Oliveira
Religiosos relatam momentos de emoção e reafirmação da fé
Existe uma ideia equivocada de que Babalorixás e Yalorixás vivem protegidos de qualquer problema, como se a fé fosse um escudo absoluto contra as dores da vida. A realidade é bem diferente. Sacerdotes e sacerdotisas também enfrentam perdas, injustiças, conflitos, doenças e momentos de profunda provação. A diferença está na forma como atravessam essas experiências.
Ao longo dos anos, muitos líderes religiosos foram colocados à prova em sua missão, em sua conduta e até em sua própria fé. Houve quem fosse silenciado ou omitido, mesmo carregando conhecimento ancestral, responsabilidade espiritual e compromisso com a comunidade. Ainda assim, seguiram firmes, sustentados pela fé e pelo saber construído ao longo da caminhada religiosa.
Nos momentos em que portas se fecharam e caminhos pareceram interrompidos, o jogo de búzios fortaleceu a orientação e trouxe clareza. Por meio dele, muitos compreenderam o tempo certo de agir, de esperar ou de redirecionar escolhas. A tradição ensina que nem toda pausa representa fracasso e que o silêncio também pode fazer parte do processo de amadurecimento.
Em diversas situações, o ebó se mostrou um recurso fundamental para a reorganização da vida, não como solução imediata, mas como prática consciente de equilíbrio e fortalecimento espiritual. Ao alinhar atitude, pensamento e espiritualidade, sacerdotes conseguiram restaurar seus caminhos e a segurança necessária para continuar exercendo sua missão.
Exemplos de fé
Há ainda aqueles que enfrentaram conflitos profundos, problemas de saúde, traições e incompreensões que quase os afastaram da vida religiosa. Em vez da desistência, buscaram orientação nos Orixás, revisaram posturas e aprofundaram seus conhecimentos. A superação veio da união entre fé, saberes e prática ritual responsável.
Mãe Maria de Ògúnjà, dirigente do Ilê Axé d’Ogunjá, traz um testemunho de superação pela fé. Em determinado momento, viu uma de suas filhas de Ọ̀ṣọ́ọ̀sí, jovem cheia de vida, mergulhar repentinamente em profundo sofrimento emocional, como se uma névoa lhe roubasse a alegria. Foram dias de angústia, busca por acompanhamento profissional, cuidados espirituais e muita fé. Sem abandonar a responsabilidade humana, Mãe Maria uniu ẹbọ (ebó), amor e muita fé nos Orixás. Aos poucos, a filha reencontrou o equilíbrio, recuperou o brilho no olhar e retomou sua vida. Hoje, ela afirma que fé e perseverança, aliadas ao cuidado necessário, transformam a escuridão em caminho de superação.
Outro exemplo de superação é o de Mãe Manu da Oxum, dirigente do Templo de Umbanda Tsara Paixão Cigana. Em 2024, seu filho carnal Miguel, então com 12 anos, passou mal em um shopping e precisou ser levado às pressas para o hospital, em razão de uma alteração enzimática que poderia comprometer órgãos vitais. Miguel havia sido internado cinco dias antes do dia 20 de janeiro, data dedicada aos festejos de Oxóssi no Rio de Janeiro. Diante da gravidade da situação, Mãe Manu se fortaleceu na fé e, junto com Miguel, que é filho de Oxóssi, bateu cabeça e buscou amparo e cura espiritual por meio das oferendas e da confiança nos Orixás. Em poucos dias, os exames se normalizaram, permitindo que mãe e filho participassem de uma celebração dedicada a Oxóssi, marcada por agradecimento, emoção e reafirmação da fé.
A força de quem tem fé
A vivência religiosa ensina que cair ou enfrentar problemas faz parte da experiência humana. O que realmente importa é a forma de levantar. Com consciência, responsabilidade e suporte espiritual, é possível atravessar tempestades sem perder o rumo. Os Orixás não prometem ausência de dor, mas oferecem direção, sustentação e força para seguir em frente.
A fé, quando bem compreendida, não afasta os problemas, mas transforma a maneira de enfrentá-los. Aliada ao conhecimento, ao ebó e ao jogo de búzios, ela se torna um suporte sólido e vitorioso. É assim que os sacerdotes das religiões de matriz africana seguem firmes, mesmo diante das adversidades, sustentados pelo sagrado e pelo compromisso com sua missão.
Como meu guardião sempre diz: é pra quem tem fé!
Axé para todos!




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