A ancestralidade de Zeneida de Marajó no enredo da Beija-Flor
- Paulo de Oxalá

- 10 de abr.
- 2 min de leitura

Foto: Claudinho, Zeneida Lima e Selminha-divulgação Beija-Flor
A trajetória da última pajé marajoara
Nas águas profundas da Amazônia e no ventre fértil da floresta nascem mulheres moldadas pela força da terra.
As caboclas amazônicas carregam nos braços o sustento, no olhar a coragem e na alma a sabedoria herdada dos ancestrais. São guardiãs da vida, da mata, dos rios e das tradições. Mulheres que aprendem com o vento, com as folhas e com os encantados a resistir e florescer mesmo diante das maiores adversidades.
É dessa força ancestral que surge Zeneida Lima.
Mulher amazônida, símbolo de resistência, espiritualidade e sabedoria popular, ela transformou sua existência em missão de preservar a cultura, proteger a natureza e manter vivos os conhecimentos sagrados do povo marajoara.
Reconhecida como a última pajé marajoara, Zeneida será a grande homenageada da Beija-Flor de Nilópolis no Carnaval 2027 com o enredo “Zeneida: O Sopro do Pó de Louro”.
Após levar à avenida o enredo “Bembé” em 2026, a escola volta seu olhar para o Norte do Brasil e mergulha na ancestralidade encantada da Ilha do Marajó para contar a história de uma mulher cuja vida se confunde com o próprio sagrado da Amazônia.
Pajé, compositora, escritora, poeta, ambientalista e ativista social, Zeneida tornou-se uma das maiores referências culturais do Pará e do Brasil. Seu trabalho ultrapassou os limites da espiritualidade e ganhou dimensão social por meio da Instituição Caruanas do Marajó Cultura e Ecologia, onde promove educação, cultura e consciência ambiental para crianças e jovens da região.
Sua trajetória já havia inspirado a Beija-Flor anteriormente através da obra O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó, livro publicado em 1992 que serviu de base para o desfile campeão da escola em 1998. Agora, quase três décadas depois, a azul e branca retorna ao universo marajoara para narrar não apenas os encantados, mas a vida da mulher que os tornou conhecidos em todo o país.
A importância de Zeneida também foi reconhecida fora do universo cultural popular. Em 2021, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade do Estado do Pará por sua contribuição à preservação dos saberes tradicionais amazônicos. Sua história ainda chegou ao cinema no filme Encantados, dirigido por Tizuka Yamasaki.
Sob a assinatura do carnavalesco João Vitor Araújo, em parceria com os pesquisadores Vivian Pereira, Guilherme Niegro e Bruno Laurato, a Beija-Flor prepara uma viagem estética e espiritual ao coração da encantaria marajoara. A equipe já realiza pesquisas de campo em Soure para aprofundar o contato com o território e a história da homenageada.
Mais do que contar uma biografia, a Beija-Flor levará para a avenida a celebração de uma mulher que se tornou símbolo de ancestralidade viva.
Uma mulher que cura, ensina, protege e inspira.
Uma mulher que honra sua terra e representa a grandeza das mulheres amazônicas.
Quando a Sapucaí se abrir em 2027, o Brasil verá desfilar não apenas uma personagem, mas um legado.
O legado de uma mulher cuja força nasceu da floresta e ganhou o mundo.
Porque Zeneida não é apenas nome.
É memória.
É resistência.
É sabedoria ancestral transformada em vida.
Zeneida é a prova de que quando uma mulher honra suas raízes, ela se torna eterna.
Axé para todos!




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